Situação original: Ana, aluna de 16 anos, numa aula de Matemática em que o professor explicou rapidamente um conceito novo, ela não conseguindo acompanhar a transição entre dois passos, hesitantemente ergueu para colocar uma dúvida.
Envolvidos: A aluna Ana, o professor e os colegas de turma.
Desfecho: Ao ver que o professor já se tinha virado para o quadro e sentindo um silêncio constrangedor na sala, e julgando que os colegas tinham entendido, a Ana achou que iria parecer nesciente e por isso logo baixou a mão, guardou a dúvida para si e, a partir desse momento, ativou um mecanismo de defesa, passando a sobreviver às aulas em vez de realmente aprender, e portanto não mais voltou a questionar.
O Diagnóstico: Fatores emocionais e sociais: Falta de segurança psicológica em sala de aula, grande receio de julgamento pelos seus pares, vergonha, constrangimento e sobrecarga emocional.
Perspetiva neurocientífica: O medo de não estar "ao nível" dos demais colegas e poder ser julgada ativou o sistema nervoso simpático (enquanto resposta de fuga). Isto fez com que a amígdala "desligasse" temporariamente o córtex pré-frontal — a área cerebral indispensável para o raciocínio, a compreensão e aprendizagem significativa.
Micro-ação Proposta:
Para que Ana e outros alunos possam combater o silêncio e promover um ambiente seguro para perguntar sem medo de julgamentos, podem ser adotadas medidas pedagógicas, tais como:
- pausas de escuta ativa e intencional por parte do professor, com momentos breves no início e meio da aula com perguntas orientadoras como "Onde estão na matéria?" ou "Que parte ainda não ficou clara?", fazendo propositadamente compassos de segundos de silêncio antes de recolher respostas.
- adotar canais alternativos de participação, permitindo respostas e dúvidas por escrito ou de forma anónima (por exemplo, através de post-its ou ferramentas digitais), reduzindo a exposição direta de quem receia o escrutínio público.
- normalizar do erro: o docente pide cultivar um espaço onde o erro e a dúvida sejam contemplados como etapas naturais e essenciais do processo de aprendizagem, sem que tal resulte em qualquer tipo de julgamento ou culpa.
No caso da aluna Ana, não só ela teria mais segurança e confiança para questionar e aprender sem recio de ser julgada, como todo o resto da turma teria oportunidade de consolidar melhor o que tivesse aprendido, e poderiam vir a treinar a empatia entre pares.
Indicadores de Sucesso:
- Aumento da participação: o crescimento gradual de perguntas colocadas pelos alunos, de modo direto e presencial ou por meios alternativos e anomimamente.
- Mudança comportamental e atitudinal: os alunos mostrarem mais confiança e menos medo de questionar e de assumir dúvidas, uma maior participação, o que espelha um clima de sala de aula mais seguro, empático, focado e preocupado com bem-estar cognitivo dos alunos.
Por: Maria Mendes